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Tempos pós – modernos.

É um ótimo exercício, transpor o tempo e com outros olhos focar o mundo atual.                                                               Como Charles Chaplin faria seu filme hoje?                                                                                                                               Lembremos que o cinema era o meio de comunicação de massas, aliás tudo nesta época era de massas; e foi ele a decodificar ao mundo o fenômeno do descontentamento humano com os efeitos da revolução industrial que culminou com sua saturação no final da década de 60.
 

Ele mostrou a massificação do consumo de bens duráveis, pela produção em alta escala de unidades padronizadas, que por isso tinham baixo custo, tornando alta sua taxa de penetração no mercado . Por outro lado esta produção tinha que ser conseguida com mão de obra originária da agricultura, geralmente composta por imigrantes que nem sequer falavam a língua local, e que deveriam ser os próximos consumidores daquela produção (Esta era pelo menos a visão de Ford ao aumentar sua remuneração).
 

A genialidade de Frederick W. Taylor havia resolvido o problema de produção. Engenheiros planejavam as ferramentas e o trabalho, fragmentando-o em inúmeras tarefas simples, exigindo movimentos elementares que pela repetição se tornavam muito rápidos. Isto aliado a uma ativa super-visão e um tempo mínimo de treinamento faziam com que nem mesmo diferenças de língua atrapalhassem altos ganhos de produtividade. Os métodos de Taylor foram potencializados pela padronização e introdução da linha de montagem por Henry Ford.
 

Com o que então estava descontente esta sociedade? A monotonia da repetitibilidade do trabalho e das coisas padronizadas. A utilização do cérebro dos engenheiros e dos braços do trabalhador, produziu divisões maiores na sociedade. O fenômeno era simples: o homem havia inventado a máquina para fazer coisas simples e agora estava imitando-a. Tudo deveria funcionar “como engrenagens”, todos eram “elos de uma mesma corrente”, as pessoas eram “peças” com papeis bem claros e facilmente substituíveis; as estruturas das organizações eram “rígidas” e as informações obedeciam “movimentos lineares”, ou seja, de cima para baixo em perfeita hierarquia.
 

Como um Chaplin atual poderia , expressar o fenômeno que assalta a sociedade pós-industrial? Através de um “site” intruso disseminado na internet por um vírus? Apresentaria o executivo que trabalha 16 horas por dia, na tentativa de processar todas as informações recebidas? E operário que termina seu horário normal e assume o papel de vigia noturno. Ou a professora que leciona pela manhã, faz traduções em casa a tarde, e à noite se conecta a um Call Center para atendimento a clientes de alguma empresa?
 

As pessoas podem trabalhar ‘on line’ a qualquer hora , de forma ‘dedicada’, em geral ‘plugadas’ por celular ou ‘palm tops’, a empresas ‘flexíveis’ que operam ‘em rede’, provendo ‘acessos’ umas às outras de forma ‘integrada’...
Seria possível demonstrar que não é mais possível planejar e controlar todas as possibilidades como foi nos tempos do racionalismo? Como mostrar a diversidade e a complexidade exigindo especialização e visão micro, e embotando visão global macro? Como apresentar a irracionalidade de um sistema que para se sustentar, induz a acumulação de bens, acessos e títulos de um lado, acumulando exclusão do outro? Como apresentar os conflitos gerados pela substituição da propriedade pelo acesso? Estes trazidos pela Era dos Serviços em que a troca de propriedade dos bens não é mais o fundamento do sistema, e sim o acesso a eles. Dentro em pouco um restaurante não servirá mais feijoada, e sim: ‘proverá aos interessados, o acesso à experiência de degustar uma suculenta feijoada’. O produtor contudo, continuará plantando feijão.
 

E sobretudo, como Chaplin apresentaria a corrida contra o tempo? Uma espiral concêntrica que, reduzindo cada vez mais o conceito de curto prazo, tende ao nada.
Com esta, Danny Hillis um dos pais dos supercomputadores já começou a se preocupar. Ao se dar conta que a ‘visão de cada vez mais curto prazo’ nos faz perder a capacidade de ouvir o ritmo profundo das transformações, Hillis propôs a construção de um relógio monumento perene, projetado para contar o tempo em 10 mil anos, à prova de terremotos e catástrofes cujo ‘tic’ seria ouvido num ano, e o ‘tac’ no ano seguinte; um ‘bong’ a cada século e um ‘cuco’ sairia a cada milênio. Um símbolo que sirva de contraponto; que obrigue as pessoas a refletir não em meses ou anos, mas em gerações, séculos e milênios. Um monumento à reflexão sobre responsabilidade. Não só sobre os que habitam a terra hoje, mas sobre as próximas gerações, 100 ou 300 anos.


Tal como em Tempos Modernos, Chaplin estaria tentando mostrar outra simplicidade ocorrida? O homem inventou o computador para acelerar processos complexos. Agora tenta imitá-lo. O stress e a ansiedade seriam agora decorrentes da percepção da nossa incapacidade em lidar cada vez mais rápido com um mundo cada vez mais complexo?
Se um Chaplin nos ajudasse entender nossas angústias, talvez pudéssemos superá-las, ou pelo menos digerí-las melhor.

Miguel Scotti Curitiba, 7 de novembro de 2000.
Publicado Gazeta do Povo p 14 em 14/11/2000
 

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