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Ignorantes da Duração – ou porque fracassou a Conferência do Clima em Haia.


A Holanda foi palco nas duas últimas semanas, de um fato que aos menos avisados passou despercebido. A Conferência Mundial do Clima. Os países desenvolvidos fracassaram, ao tentar um acordo para limitar o aquecimento global do planeta. A atual Conferência previa regulamentar as regras para cumprir o Protocolo de Kioto de 1997, que prevê a redução em 10 anos, a partir de 2002 de 5,2 % das emissões de gases poluentes, tendo por base os registros de 1990.


Ninguém mais tem dúvidas a respeito do fato: o aumento da temperatura da atmosfera terrestre. Nem de suas causas: a emissão de todo o tipo de gases, que se acumula na atmosfera e reflete internamente o calor, não permitindo sua dissipação. Tampouco suas conseqüências: os degelos, as inundações e o aumento do nível médio dos mares, e seus efeitos sobre agricultura, indústria, saúde etc.
 

O Acordo de Kioto prevê um corte linear nas emissões, ou seja, quem emite mais gases poluentes naturalmente deveria enfrentar um esforço proporcional nesta tarefa. O que significa dizer: os blocos mais industrializados, que também são os maiores poluidores, deveriam pagar a maior parte da conta, proporcionalmente. Resultado: o fracasso da conferência. EUA e União Européia não puderam consentir com essas reduções, porque teriam uma retração e desemprego em suas economias. É evidente que pela fragilidade das nossas economias (e não pelo mito da ‘globalização’), também nós os ‘em desenvolvimento’ sentiríamos reflexos.


Este fracasso nas negociações ao nível macro, assim como o protecionismo unilateral, adotado por estes mesmos blocos através das barreiras tarifárias e não tarifárias, revela a mesma faceta da ‘globalização’. Aquela, em que o mercado do vizinho é que deve ser globalizado, as industrias do vizinho é que devem parar de poluir, as florestas do vizinho é que devem ser preservadas.... é a ‘globalização’. Por que só os problemas devem ser globais?
 

Some-se a isso o relevante fato de que o dióxido de carbono é o grande vilão, representando quase 70 % das emissões poluentes; e que provêm em sua maioria da queima de combustíveis de origens fósseis. Certamente a triste Conferência sediada na Holanda teria outro resultado, se não tivesse suas bases fundamentais assentadas sobre o ouro negro. Base da matriz energética mundial, alicerce de centenas de cadeias produtivas (automobilística, química, petroquímica, transportes etc), o petróleo, dádiva da natureza, mantém o mundo refém.
 

Ao nível micro, a questão ambiental, mais parece um problema oftalmológico: o da miopia. As pessoas e organizações não conseguem ter uma visão sistêmica dos processos produtivos. Comumente pensamos que as saídas da produção são somente os produtos aprovados pelo controle de qualidade. E ignoramos os resíduos, as emissões, o lixo, os rejeitos, os esgotos de qualquer natureza. Eles também são saídas dos nossos processos de fabricação. Algumas empresas ao encararem seus resíduos como simples saídas dos seus sistemas, obtiveram reduções de custos, desenvolveram novos produtos, novos mercados e novas receitas. São conhecidos os exemplos do aproveitamento energético, ou fertilizante de muitos resíduos industriais.
 

O fracasso em Haia, deve permitir ainda uma reflexão. Se decidíssemos um ‘apagão’ de quarenta minutos para amanhã as onze horas, certamente daria mais o que falar. Haveria estatísticas sobre perdas de produção; milhões em indenizações seriam movimentados; a bolsa de valores perderia preciosos pontos, não só com o volume não negociado mas com a desvalorização das ações das companhias seguradoras, e empresas concessionárias; e um sem numero de estudos estaria sendo realizado para evitar que isto acontecesse outra vez. Os prejuízos seriam incalculáveis.
 

O pragmatismo da nossa cultura nos tornou incapazes de perceber além de uma geração. Tudo se passa como se nada houvesse além de um curto presente. Acostumamo-nos a raciocinar em curto prazo (a solução de problemas), pensar no médio prazo (os resultados no final do ano e nossas férias) e sonhar com o longo prazo (quando os filhos crescerem, ou quando parar de trabalhar). A aceleração a que nos deixamos lançar pelo pragmatismo dos nossos atos e decisões, parece ter embotado nossa percepção do tempo. Tudo se apresenta como passageiro. Modas, produtos descartáveis, empregos transitórios, relações passageiras.


Seria a apatia mundial diante de tal fracasso, o efeito colateral provocado pela injeção de presente que anestesia a percepção de futuro?
Teria, o envolvimento com o presente, levado ao descompromisso com o futuro?
Teriam enfim, findado as responsabilidades para com o ambiente e o legado das próximas gerações?
Ou seriamos agora, simplesmente ignorantes da quarta dimensão?
A duração.
 

Miguel Angelo Scotti,  Curitiba, 28 de novembro de 2000.
Publicado pela Gazeta do Povo em 4/12/2000 p. 12
 

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