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A Globalização e a Mitologia.

Você já viu o saci-pererê? E a mula-sem-cabeça? ...Não! ...Mas já ouviu falar muito deles! E é só por isso que eles são mitos. Os mitos são esses entes que permanecem na crendice popular, sem que ninguém os tenha, de fato, visto. São constantemente lembrados em histórias contadas pelos mais velhos aos mais novos, geralmente com o objetivo de envolver, distrair e manter vivo o próprio mito.
 

Segundo o Aurélio, ‘globalizado é o que é tornado global, totalizado, integralizado’. E global é o que ‘é tomado ou computado em globo, por inteiro, integral, total’. Para Mac Luhan a terra se tornaria uma aldeia global. E a que se refere a tão propalada globalização?
Aprendi com meu mestre, Luiz Fernando Silva Pinto – o LF, que quando se tem um grande problema, a primeira coisa a fazer é fragmentá-lo para bem entender cada parte. Desta forma, a pergunta deve ser: - o que está sendo globalizado? Certamente não é tudo. O Sistema Financeiro? A Cultura? A Tecnologia? O Mercado? Os Problemas? Verificar a globalização destes, é verificar seus fluxos internacionais.  É como monitorar e analisar o tráfego deles pelas vias inter países.


Podemos realmente ver e até sentir as conseqüências da livre movimentação dos fluxos de capital, que percorrem o mundo, de bolsa em bolsa, com a velocidade da informação. Tornado possível pelas comunicações, o dinheiro eletrônico pode circular quase sem alfândega, por quase todo o globo. Evidentemente que este fluxo se desloca preferencialmente pelas iluminadas autopistas que ligam as bolsas de Tóquio, Londres e Nova Iorque. Ocasionalmente derivam pelas estradas dos países em desenvolvimento, e raramente andam pelas empoeiradas picadas do terceiro mundo.
 

Embora possamos testemunhar um aumento dos fluxos financeiros internacionais, as aplicações domésticas (em seus próprios países), somadas são esmagadoramente maiores do que as inversões em ativos de origem transnacional. Este tom também é dado pelos próprios comportamentos dos maiores investidores institucionais, os fundos de pensão e seguradoras, ao manterem laços muito fortes com seus mercados domésticos.
 

Esta estatística de tráfego, parece ainda mais acentuada quando os veículos analisados são os Investimentos Diretos. Durante a última década, além das inversões recíprocas feitas entre os membros do G7, testemunhamos movimentações na direção do oriente asiático, particularmente China, leste europeu, México, Chile e Brasil. Os chamados : em desenvolvimento. Um fluxo crescente, é verdade, principalmente visto sob nosso ângulo brasileiro. Mas certamente muito longe de poder ser comparado aos investimentos diretos realizados internamente em cada mercado doméstico. Visto sob estes dois aspectos, o sistema financeiro internacional, apesar de crescente está longe de poder ser considerado global.
 

A cultura e a visão do mundo, se consideradas como informação, estas sim atreladas inicialmente ao cinema, depois à televisão e recentemente à internet, têm varrido o globo; disseminando principalmente modismos e forjando uma homogeneidade superficial de valores, hábitos e comportamentos baseados no modelo ocidental, mais propriamente no americano. É fácil perceber, por exemplo, a contaminação dos idiomas, hábitos de vestir (jeans), de alimentar (fast-food), de calçar (tênis). Desta forma, a ‘globalização’ cultural tem sido adequadamente chamada de: - internacionalização da cultura americana. Não tenho visto muita gente por aqui usando turbante na cabeça, ou sandálias de couro, nem comendo cérebros de macacos. Hábitos comuns no Saara, Indonésia e Botsuana, respectivamente.
 

O que dizer da Tecnologia? Temos chamado a atenção para a necessidade de inversões em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, assim como para a crescente exclusão tecnológica a que todos estamos, lenta e gradativamente, nos submetendo. Estatísticas nos dão conta que 92 % das patentes em uso no mundo, são de propriedade americana. Diante disso é fácil entender o fluxo de investimentos diretos em industrias nos países em desenvolvimento. Uma tal concentração da propriedade tecnológica, não pode ser chamada de globalização.
 

A produção de bens e o mercado. Com a ‘globalização’, a abertura das fronteiras possibilitou a ampliação do comércio internacional. Só podemos avaliar o nível de ‘globalização’ pelo tamanho do comércio internacional em relação ao comércio total. E aqui está o grande engodo. Países como os que compõem o G7, exportam o equivalente a 20 % de seu PIB. O Japão tem o maior índice, 27 %. O Brasil 8 %. Para ficar mais claro, é preciso dizer que 80 % do mercado abrangido pelos EUA é doméstico. Que 73 % do mercado no qual o Japão participa é o seu próprio mercado interno. E 92 % do mercado brasileiro é doméstico. Está, portanto, longe a ‘globalização’ dos mercados. E mais, a metade das trocas realizadas (importações e exportações) nas fronteiras dos EUA, é feita entre Empresas americanas e suas próprias subsidiárias instaladas fora do país.
 

Era maior e mais bem aceita a imigração de trabalhadores antes da primeira guerra mundial do que hoje. Em 1910, 14,7 % da população Americana era nascida no exterior. Em 1996, este numero caiu para 9,3 %. De longe, a internacionalização conduzida pelo Império Romano, ou até mesmo aquela feita pelos portugueses no século XV; pareciam mais ‘globalizantes’.


E o que dizer sobre a Conferência Mundial (por que não global?) do Clima em Haia? Que no fracasso total em conseguir acordo para redução do aquecimento do planeta, põe a nu o mito da globalização. Ao reconhecer que isso poderia trazer desemprego para seus mercados internos, Americanos e Europeus, donos das maiores concentrações de fontes geradoras de calor e poluição, adiam uma vez mais, uma solução (esta sim) Global. Planetária, para expressar nossa responsabilidade com as próximas gerações.
 

Falta perguntar: Por que incluir este ente chamado ‘globalização’ na Mitologia, ao lado do saci-pererê, boi-tá-tá e lindas sereias? É certo que não combinam esteticamente!


Eu me pergunto se não é para justificar ao mundo coisas como a apatia do povo americano com suas eleições e depois com o caos das apurações. Uma forma de fazer passar despercebido ao mundo, o poder e a estabilidade de suas instituições nacionais, enquanto fomenta a ideologia da globalização, na qual as nações teriam seu poder diminuído pela complexidade do mercado global, dominado pelas grandes corporações.


É real o crescimento do comércio mundial de bens de maior conteúdo tecnológico e conseqüente valor agregado. É real o crescimento da produção mundial patrocinada pelas grandes corporações mundiais. E é real o crescimento internacional dos investimentos privados diretos. È real também o declínio da capacidade de investimentos dos Estados. Mas não é verdade o declínio da capacidade de Regulação das Nações sobre seus mercados domésticos e suas relações Comerciais Internacionais. Nítido exemplo disto, são as infinitas barreiras protecionistas (tarifárias ou não) adotadas pelos países desenvolvidos. E que não são adotadas pelas grandes corporações, mas pelo próprio estado.
 

Manter o mito parece, portanto, coerente. Enquanto mantemo-nos distraídos com a ‘globalização’, esquecemos do mercado interno e da regulação.

Miguel Scotti,  Curitiba, 28 de novembro de 2000.
Publicado Gazeta Mercantil PR pg. 2 em 14.12.2000.
 

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