Miguel Scotti
O futuro próximo está definido. Por um lado: baixas taxas de crescimento do PIB e renda per capita em alta são os ingredientes perfeitos para um cenário inflacionário. As pessoas terão dinheiro para gastar sem ter o que comprar. Resultado? Alta de preços. Por outro: histórica falta de investimentos em infraestrutura e total descompromisso com a educação são os ingredientes perfeitos para a perpetuação do alto custo Brasil e da incapacidade brasileira de melhorar e inovar produtos, serviços e processos e, desta forma, aumentar a nossa produtividade. Culpa do governo!

Mas só dele? E a nossa responsabilidade como empresários, líderes e gestores? Sim. Todos os que temos alguma coisa a ver com a gestão de negócios, organizações, projetos ou equipes temos responsabilidades sobre competitividade e produtividade. Em outras palavras, sobre o PIB e sobre a taxa de crescimento do PIB. Não vemos assim? Claro! É difícil perceber o todo quando se está especializado, restrito à um determinado cenário, setor ou linguagem.

Mas de quem estamos falando quando dizemos: “todos os que temos alguma coisa a ver com a gestão…?” De todos os que temos funções responsáveis pela entrega de resultados. Nome aos bois? Vamos lá: presidentes, diretores, supervisores, gerentes, superintendentes, coordenadores, supervisores no universo empresarial. Presidentes, ministros, governadores, diretores, secretários, coordenadores, chefes de seção no universo público.

Para entender, afinal, o que é gestão precisamos identificar o que estas funções têm em comum além de, como já vimos, entregar resultados sejam eles na forma de números financeiros, indicadores, serviços, produtos, qualidade, prazos, especificações… etc. Sejam eles de curto, médio ou longo prazo o único e real objetivo dessas funções é entregar resultados à alguém – um cliente! Um usuário, um beneficiário… como queiram no seu cenário.

Mas vamos ao que qualquer dessas funções dispõe para entregar resultados. Equipes – pessoas que realizam atividades coordenadas para produzir resultados planejados. Orçamento: quem não está atrelado a custos e limitações orçamentárias…? Equipamentos: quem não dispõe de computadores, tratores, extrusoras, tornos, caminhões…? Instalações: quem não está localizado em um ambiente? Escritório, sala de aula, fábrica, agência bancária, canteiro de obras, home office…? Ferramentas: quem não dispõe de algumas ferramentas como sistemas operacionais, aplicativos, chaves de fenda e de boca, sistemas de planejamento e controle financeiro, logístico, de produção, de vendas… aquelas ferramentas nas quais nos habilitam a maioria das nossas escolas de negócio. Organização: quem não está integrado a uma rede organizada de funções no organograma e a uma cadeia de processos e atividades inerentes à entrega de resultados sob sua responsabilidade? Reuniões, comitês, projetos, superiores, subordinados, colaboradores, pares e assessorias. Informações: Quem está livre de trabalhar com um sem número de informações? São variáveis de cenário, pedidos, solicitações, especificações, prazos, valores, reclamações, relatórios, notas fiscais, informações contábeis, lançamentos, orientações, normas, procedimentos a cumprir… Relações: quem não mantém ou precisará um dia manter relações com fornecedores, órgãos de classe, sindicatos, parceiros, consultorias, professores, universidades, desenvolvedores, bancos, corretoras… Alguém externo que some algum valor à nossa atividade? Tempo: quem tem tempo? Prazos à cumprir, avaliações periódicas, reports, relatórios. Tempo: um recurso mais do que finito.

Você conseguiu relacionar os recursos de que dispõe para entregar os resultados que são esperados de você? Ficou impressionado com a quantidade de recursos que tem sob sua responsabilidade? E dos quais você deve obter o melhor – a essência da gestão? Mas não é só isso.

Todas as funções gerenciais têm sob sua responsabilidade um recurso tão especial que não o chamamos de recurso. Chamamos Competência. É o know how, a expertise, o conhecimento aplicado para realizar as atividades da sua equipe. Um setor de usinagem só produz bons produtos e resultados se dominar o conhecimento de usinagem. Não adianta dispor dos melhores tornos instalados no melhor edifício da cidade; de um orçamento enorme; de processos bem organizados, de matérias primas excelentes se não tiver um conjunto de conhecimentos técnicos e tecnológicos que permitam desenvolver a atividade de usinagem com as melhores práticas. Assim como de nada adiantaria no departamento contábil ter gente muito motivada, os melhores computadores e sistemas, se as pessoas não conhecessem a legislação tributária, as normas e procedimentos contábeis e não soubessem por que do método das partidas dobradas. Ou ainda: você compraria um apartamento de uma construtora sem conhecimentos de engenharia?

Podemos resumir a atividade de rotina comum a todos os gestores como sendo: aplicar um conjunto de competências para utilizar um conjunto de recursos em um conjunto de processos para produzir resultados planejados para um cliente.

Coordenar e integrar.

Espera-se, portanto que alguém com responsabilidades de gestão seja capaz de coordenar e integrar um conjunto de competências e recursos em atividades ou processos para entregar resultados planejados à um cliente. … ufa!

Calma! Isto seria suficiente se vivêssemos em um mundo não competitivo, ou em um mundo lento, no qual as mudanças não fossem a regra. No qual pudéssemos ter certeza de que no próximo trimestre tudo seria como hoje. Usando, novamente, a figura da escada rolante: se quisermos apenas nos manter na altura conquistada subindo por uma escada rolante que desce não dá para fazer apenas a rotina: coordenar e integrar. Estas responsabilidades correspondem à dimensão estática da gestão. E ainda falaremos destas duas competências tão necessárias aos gestores em qualquer nível.

Como sabemos, o mundo muda, a concorrência se movimenta, as tecnologias avançam, as preferências do cliente mudam, o cenário econômico se altera, e as interdependências são enormes. Neste ambiente espera-se, mais do que nunca, que a gestão possua dimensões mais estratégicas. Dimensões capazes, senão de nos impulsionar escada rolante acima, pelo menos de nos manter na posição conquistada. Essas dimensões são a dinâmica e a transformacional. Falaremos delas no próximo artigo.
(a continuar)