Mas afinal, o que é Gestão? (a missão 5)

Miguel Scotti

Cenário

No segundo artigo desta série, examinamos os fatores comuns à gestão em qualquer nível. Ao voltar nossa atenção para a postura dos gestores do nosso tempo o fizemos em relação às necessidades de unidade de propósitos. Uma arquitetura capaz de comunicar direção ao esforço de pensar e agir da equipe. Neste artigo queremos examinar as variáveis do espaço/tempo que envolvem, alteram e são alteradas pela gestão. O desenvolvimento da percepção do gestor para o seu entorno espacial e temporal passa pela compreensão de duas metáforas: a do tetra dimensional e a do balão.

O objeto tetra dimensional nos ajudará ir além dos fatos, ocorrências, problemas, formas e seus status atuais. Se tomarmos um notebook será fácil identificar suas três dimensões: largura, comprimento e altura; ou seja: o espaço ocupado por ele. Mas e a quarta dimensão? A quarta dimensão está relacionada ao tempo ocupado por este computador. Como se tentássemos responder à pergunta: de onde está vindo e para onde está indo este notebook? Esta visão está contida na observação do universo de que tudo o que existe, passa por um processo. Tudo tem uma história. Que necessidades levaram à concepção deste produto? Como evoluiu seu design até chegar aqui? Quantas matérias primas e componentes foram testados, projetados, fabricados e dispostos nas linhas de montagem? Como evoluiu este processo de fabricação? Por que canais de distribuição passou até chegar aqui? Para onde vai quando ficar obsoleto, ou antes disso? Qual será seu destino? O que virá depois do notebook para atender aquela mesma necessidade?… Assim são as pessoas, os problemas, as soluções, os concorrentes, os cenários, as empresas… Tudo está passando… por um processo!

Aguçar nossa percepção de que tudo está passando por um processo, facilita nossa compreensão dos fatos, problemas e cenários e assim, melhor produzir o futuro. Vivemos em um continuum entre o passado e o futuro de tudo. Cada um e cada coisa em um momento desse continuum. Cada um nele se movendo ao seu ritmo e à sua velocidade. Com o incremento da capacidade dinâmica (aprendizagem e transformação) dos nossos gerentes buscamos a aceleração desse processo nas nossas empresas/organizações.

Agora vamos tomar o balão que está estacionado ao lado da nossa mesa de trabalho. Vamos soltar as âncoras e deixa-lo subir lentamente. Nesta subida vamos perceber que somamos esforços com outras pessoas, setores e departamentos para entregar alguma coisa para alguém; que para isso recebemos uma série de informações, materiais e componentes de alguém ou setor. Observamos os interessados nos produtos que entregamos e seus interesses. Percebemos as relações entre nós, nossos setores, nossos departamentos. Relações de interdependência entre eles. À medida que ganhamos altura vemos nitidamente nossa empresa/organização como parte de uma cadeia de construção de valor que inteira compete pela preferência de determinados mercados. Percebemos os arranjos, acordos e negociações feitos em cada elo dessa cadeia visando maior competitividade final.

Subindo um pouco mais percebemos todo o ambiente competitivo: clientes, fornecedores, concorrentes a sua rivalidade reinante, os produtos substitutos, os novos entrantes, os órgãos reguladores, os sindicatos, os órgãos ambientais, a fiscalização; estes representando interesses da sociedade no seu relacionamento com nossa empresa/organização/cadeia produtiva. Subindo ainda mais percebemos as diversas variáveis que afetam nossos negócios. Elas estão presentes no cenário econômico, tecnológico, político, sócio-cultural, demográfico… cada um a seu modo produzindo mudanças que alteram o equilíbrio do nosso ambiente competitivo.

Quando, como gestores, nos percebemos participes e protagonistas deste cenário e percebemos em tudo isso um processo em andamento, tomamos consciência da nossa responsabilidade sobre a competitividade da nossa cadeia produtiva e da nossa empresa. Responsabilidade esta, presente em cada arranjo que concebemos, negociamos e implantamos no dia-a-dia dentro e fora da nossa organização. Estamos desenvolvendo nossa capacidade dinâmica. Essa capacidade de transformar, de reconfigurar, de recombinar os recursos, as competências e os processos da empresa. É uma capacidade empreendedora – de realizar, de concretizar sonhos e propósitos.

Estamos nos tornando empreendedores corporativos ou simplesmente empreendedores.